


A obra de Hermes é, sobretudo,
convite à busca. Busca pelos lugares menos previsíveis de nossa capacidade de
formular: gestos, falas, imagens. Convite à busca de um não lugar que forma-se
no entre. Na fissura proposta por Barthes ou no vazio concebido por
Didi-Hubermann, busca-se uma significação que se esconde em nossos avessos, no
lado de trás, nos sulcos da matéria do papel. Na subversão do papel que deixa
de ser um onde para ser!
Na contramão de um tempo que
corre rápido demais, que custa dinheiro demais, que escorre em dias não
notados, nos devolve a todos, e primeiro a si próprio, o prazer dos lugares o
dos tempos da infância. “Às vezes, é necessário puxar as redes para observar o
movimento do mar”, afirma Hermes pescador. Eu, criança, acompanhava às vezes
meu avô quando ele ia pescar. Não me importavam muito os bagres que depois
viravam ensopado para o almoço, ou os papa-terras deliciosamente fritos por
minha avó. Creio que, no fundo, o que me interessava era mesmo olhar o mar. O
eterno movimento de ir e vir, de ser sempre diferente, sempre imprevisível, e,
talvez por isso mesmo, ser sempre o mesmo infinito.
Hoje, penso que o puxar das redes
que Hermes nos propõe, é puxar as redes do tempo, parar um pouco o relógio para
olhar para dentro: nossos mares interiores, nossas lembranças, nossas
infâncias, nossos retalhos, nossos pedaços, nossos rasgos. Nossas imagens internas
que se fazem de pedaços rasgados também. Que se formam – curiosamente – não
para além do rasgo, na superação do trauma do rasgo; mas por causa do rasgo.
Por causa do rasgo, vivemos todos da possibilidade de lidar – como faz Hermes
nesses desenhos rasgados – com a imprevisibilidade: a poesia do movimento.
Hermes valoriza o gesto, mas,
nesta série, escolhe radicalizar – e nisso opera uma forte desconstrução
ideológica – a concepção do gesto na busca daquilo que, de fato, elabora um
desenho: a mão. Não é a decisão pensada, mas a mão quem desenha. A forma não
está posta, não é conhecida de antemão. A mão que rasga não controla, é
conduzida pelo desejo da descoberta. Descoberta no rasgo. Rasgar-se para
dentro. Rasgar a forma é elaborar a escuta de seu próprio gesto. Reconhecer
seus impulsos. Quais são os desejos que se escondem por baixo da polpa do
papel? Que medos, que procuras conduzem a mão que rasga? Mão que não controla,
mas descobre. O gesto, descontrolado, em silêncio, na sutil música da polpa que
se separa do papel, elabora o rasgo do desenho. Na contramão de nossa ansiedade
de tudo controlar, de tudo possuir, de tudo decidir, abre-se o espaço do
desenho que, como em muitas obras de arte, se elabora no entre. Entre a vontade
de controle e o desejo do gesto. Entre a dureza da decisão e o acaso da energia
posta em movimento. No desejo que carrega a mão, quase como uma carícia
internalizada nas paisagens do imaginário, elabora-se o desenho do entre. Entre
ontem e hoje. Em um entre sempre impermanente, Hermes evita colar. Seus papéis
rasgados, sobrepostos, justapostos, intercalados, associados, são delicadamente
amontoados, compostos em obras de pedaços soltos que podem se reassociar,
realinhar, recompor, predispor, reorganizar num movimento infinito de um sempre
que é sempre o mesmo sendo sempre potencialmente outro. Diferença em potência
permanente.
Hermes,
como o mar, não finaliza. Não acaba. Apenas nos abraça, nos envolve com sua
imagem no tempo de três ondas e meia. Ondas que nos convidam a revisitar nossos
próprios lugares de infância, nossas lembranças, nosso próprio imaginário. E,
por que não, também nossos medos e segredos. Depois, se recolhe novamente. O
que virá carregado pela próxima onda? Valentina e Louise bem o sabem: em algum
lugar de nós, a infância dura para sempre.
O texto acima foi escrito para a apresentação da exposição "Meus papéis - rasgos e aderências na linha narrativa", exibida por Hermes Bernardi Jr. em maio/junho 2013 no Centro Municipal de Cultura/Atelier Livre de Porto Alegre. A exposição fez parte dos eventos de lançamento do livro "Conchas", de sua autoria, publicado pela editora Edelbra.