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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

As histórias são o pão de cada dia do espírito

CAVA (Wilson Cavalcanti), xilogravura.


Mensagem da Paraninfa aos alunos formandos em Artes Visuais em 2011/2, em 20 de Janeiro de 2012:

Boa noite senhoras e senhores, estimados afilhados e demais formandos,

Wim Wenders, que é um grande cineasta e artista plástico alemão e um maravilhoso contador de histórias, em um de seus depoimentos no filme Janela da Alma, fala sobre a importância das histórias para o ser humano. Nesta fala ele lembra que contar e ouvir histórias é uma das mais básicas necessidades do ser humano, não importa a idade. As histórias nos confortam, diz ele. As histórias elaboram significados. Nos aquecem. Para nós, afinal, não basta viver. Precisamos significar nosso viver. Não importa, portanto, se a história é a História oficial ou se é a estória. Se está inscrita em livros ou na paisagem ao nosso redor. Se está descrita em palavras ou inscrita em imagens. Em qualquer forma, tempo e lugar, continuam sendo necessárias.

As histórias são o pão de cada dia do espírito.

No universo da criação, criar histórias é achar desenhos para os desejos, é inventar palavras para os sonhos.

Não, meus afilhados, não lhes darei hoje conselhos. Apenas lhes presentearei um desejo.
Lhes desejo que pela vida afora, na sala de aula ou fora dela, saibam sempre valorizar e incentivar as histórias. Que vocês possam, no seu exercício de professores, contribuir para que cada um saiba contar suas próprias histórias. Que possam contribuir para que cada um seja o escritor e ilustrador do livro de sua própria vida.
Além disso, só e que posso desejar é que as histórias gravadas na memória de cada um possam contar:

Como receber a vida de braços abertos
Confiar que o destino também saberá escolher por nós
que devemos olhar para os lados de vez em quando
Como olhar as estrelas sem perder o equilíbrio
e andar na corda bamba entre desejos e medos
A arte de encher os pulmões de coragem e as asas de persistência
A não esmorecer nem perder as forças por mais longa que seja a estrada
Da necessidade de recolher-se de vez em quando em si mesmo
assim como inclinar-se e pedir ajuda sempre que necessário
Que mesmo os presentes da vida precisam ser editados
Voltar-se ao próprio coração
Ah e festejar a liberdade
Festejar a liberdade!

Boa noite, meus queridos, feliz jornada!

PS: Esta mensagem foi inspirada em uma série de 11 xilogravuras de Wilson Cavalcante, mais conhecido como Cava, gravador gaúcho, professor no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre. Cada um dos formandos ganhou uma destas xilogravuras de presente.





quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Just be yourself anyway that you want to, babe... Just be yourself anyway that you can...













Senhoras e senhores componentes da mesa, familiares e amigos destes formandos, queridas afilhadas e afilhado, boa noite!

Sim, minha mensagem para vocês baseia-se na música do grupo Morcheeba cujo refrão ouvimos [Just be yourself anyway that you want to; just be yourself anyway that you can...]. Apenas seja você mesmo, diz a letra. Apenas seja você, como você quiser, como você puder. Sim, eu repito, sejam apenas  vocês mesmas!
Mensagem bacana, não? Como se eu estivesse dizendo a vocês: “Não se preocupem, tudo vai funcionar, tudo vai dar certo, desde que vocês sejam vocês mesmas”. Apenas, sejam vocês mesmos!
Mas esta mensagem tão “bacana”, que de tão bacana parece argumento de milhares de propagandas, fala de algo que é bem mais difícil do que parece. Afinal, quem somos nós?
Esta pergunta me faz pensar em filmes. Sim, filmes. Filmes como O dia depois de amanhã, Amargedon, Guerra dos Mundos, Impacto Profundo, 2012. Tenho certeza que vocês viram algum desses filmes. Todos eles são "filmes catástrofe". Filmes cujo enredo envolve a destruição do mundo ou a ameaça de destruição da raça humana, coisas que sempre agradam ao público. Porque será que ameaças de destruição agradam tanto? Ou o que agrada ao público são os finais? Até porque nos finais todo mundo sempre se salva. Ou, pelo menos se salvam o herói e seus amigos e parentes próximos, não é isso? Ah, sim, é por isso que falei destes filmes... o herói! O que seria da raça humana sem o herói?
Mas, quem é o herói? Nestes filmes, assim como em vários da mesma linha, o herói é aquele sujeito corajoso e ousado que se lança na empreitada de salvar-se e salvar aos outros e, geralmente, acaba conseguindo salvar as pessoas que ama. Não sei se gosto muito deste argumento, até porque, que mérito há em salvarmos quem amamos? Isso é o mínimo que se espera de um herói, ou não? Que ousadia há afinal em ser herói dentro do limite tão pequeno de seus próprios afetos? Ousadia não seria batalhar para salvar o outro? O outro que também é você porque também é humano? Hum... desconfio que em alguns filmes catástrofe alguns humanos são mais humanos do que outros... a esses filmes falta pensar com um pouco mais de generosidade o que significa, afinal ser humano.   
Há alguns dias atrás, vi um outro filme catástrofe, feito pelo Lars von Trier, que chama-se Melancolia. Melancolia é um filme catástrofe porque trata de um cometa, chamado Melancolia, que vai atingir a Terra e destruí-la. Melancolia não tem herói, mesmo que só se descubra isto mais para o final do filme. Gostei muito quando vi este filme e imediatamente pensei: “nossa, que legal, este é o primeiro filme catástrofe que vejo que é verdadeiramente humano”.
Mas o que é isso que chamo de “verdadeiramente humano”? Verdadeiramente humano é o medo. Verdadeiramente humana é a coragem. Verdadeiramente humano é sabermos que o mundo, na realidade, não se divide facilmente entre “os maus” e “os bons”. Verdadeiramente humano é nos sentirmos, tantas vezes, divididos entre nossos desejos e nossa falta de amor próprio. Verdadeiramente humana é a dificuldade de conhecer-se de fato.
Melancolia me lembrou de outro filme sem heróis, Crash – no limite, que, a princípio parece ser um filme cheio de heróis. Mas, que, em seu desenrolar, nos revela que nunca sabemos quem realmente somos, até que, somos obrigados a reagir a uma “catástrofe”.
Melancolia, afinal, talvez não seja um filme catástrofe, mas uma linda história – cheia de menções às artes plásticas – sobre a humanidade. Sobre a relação da humanidade com a vida. Melancolia e Crash são filmes sobre como seres humanos enfrentam de fato, na hora “h” as catástrofes. Ser herói, de fato, e isso estes dois filmes nos mostram, é ser verdadeiramente, humano. Verdadeiramente humana é nossa capacidade de compreensão deste fenômeno chamado vida e de sua necessária complementariedade, a morte.
Recentemente, testemunhei um momento de grande humanidade, num outro auditório da Universidade. 27 de junho de 2011. Auditório do prédio 6. E por favor me desculpem, queridas afilhadas por não citar pessoalmente cada uma de vocês... Neste dia, 27 de junho, no palco do auditório, estava a Michele apresentando o seu Trabalho de Curso com a ajuda da Daniela. A Michele, ofegante, mas serena, lidando com sua dificuldade de fala e locomoção. Dificuldade com a qual lidou durante toda a vida, durante todo o curso, mas que não a impediu de realizar seu sonho. A Daniela, ajoelhada em frente à Michele, segurando para ela o microfone. A Daniela, que é uma menina linda, inteligente, com nenhuma dificuldade para ir e vir, fazer e acontecer. E a vida, tão grande colocou as duas ali no palco para nos mostrar que o único caminho para a aprendizagem é a coragem, que o único caminho para a ousadia, é a humildade. Exemplo de humanidade dessas duas foi perceber que não há limites, para as realizações e para o afeto. Humanidade heróica é isso!
Sim, sejam apenas vocês mesmos. Mas, por favor, lembrem-se sempre de desconfiar de vocês próprios! E lembrem, sempre do exemplo da Daniela e da Michele: deste exemplo de dedicação! Enquanto dica de madrinha para a vida futura de vocês, profissional e pessoal, repito, desconfiem de vocês próprios. Desconfiem de suas certezas, de seus afetos, de suas mágoas. Há muito mais em nós do que conseguimos nos revelar ao olharmo-nos ao espelho.
A linha que separa a coragem da temeridade chama-se humildade.
A linha que separa a liberdade da frustração chama-se ousadia.
Dosar humildade e ousadia, coragem e liberdade o que nos faz, de fato, mais humanos!
Sejamos todos, apenas, mais humanos.

Muito obrigada.


Ouro de artista é amar bastante!
Mensagem da Paraninfa aos alunos formandos em Artes Visuais 
turma 2011/1, em 5 de agosto de 2011.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Sinto falta de imagens menos óbvias!

Há algum tempo tenho achando o cinema chato. Igual. Gosto de ver filmes que de alguma maneira me comovam, ou me surpreendam. E que façam isso abalando profundamente minha percepção e minha maneira de ver e pensar sobre as coisas. Tem sido difícil ter esta experiência ultimamente. Mas, pelo menos três filmes da temporada cinéfila de verão mexeram comigo.
Não se trata de obras primas do cinema. Em matéria de cinema, sempre acho que o visual é uma das causas da alteração da percepção, logo, é responsável pela alteração em nossa maneira de pensar. Gosto de pensar que a imagem no cinema permite aquilo que Wim Wenders (http://www.wim-wenders.com/ e http://pt.wikipedia.org/wiki/Wim_Wenders) no documentário Janela da Alma chama de espaço para “entrar no filme”. A partir daí, levando em consideração a minha relação com o cinema, o restante acompanha. Fala-se por imagens. Conta-se histórias, como diz Wim Wenders com imagens. A música, o roteiro, os personagens, podem ser uma tentativa de abertura da imagem. Quando isto acontece, tem-se o cinema que aprecio. O cinema que necessito.
Dentre os três filmes vistos recentemente, há um no qual esta idéia fica explícita: Biutiful de Alejandro González Iñárritu
(http://www.youtube.com/watch?v=ra8a-D7p3JE&feature=related). A história se passa em Barcelona, mas a maior parte dos turistas que estiveram lá um dia talvez não entendam o que vou dizer agora. O filme de Alejandro me fez lembrar do cheiro de Barcelona! Mais do que o enredo, que não é pouca coisa, ou da atuação de Javier Barden que é incrível, este filme me pegou pelas imagens de Barcelona que apresenta. Não falo somente das tomadas panorâmicas menos óbvias da cidade. Falo dos becos, das ruas na luz outonal, da Barcelona da chuva, falo do banheiro, das janelas e do papel de parede! Biutiful me transportou para o registro de algo que já vivi, imersa de corpo, de alma.
Há também um filme simples que me pegou pela projeção. Pela projeção de mim mesma ali na tela. Sobrevivendo com lobos (http://www.youtube.com/watch?v=Gnj9IhOkvnw&feature=player_embedded) me fez ver, viver, e reviver, o sonho. Um sonho infantil com lobos e feras selvagens. O filme transformou em imagem real meu imaginário infantil. Me devolveu o vento e a neve! O filme me lembrou que algumas ficções são mais reais que nossa história verídica!
Já o terceiro filme que me marcou na temporada me pegou pela emoção. O Concerto (http://www.youtube.com/watch?v=pMA3or8iT9I) pode não ser genial na forma, mas é complexo ao levar o espectador, de fato, do riso às lágrimas. Há uma ironia política sutil na história. Bom, nem sempre sutil... Há uma revelação mais ou menos óbvia da relação entre histórias pessoais e escolhas artísticas, ou mesmo a escolha pela arte em si. Mas não me pareceu nada óbvia a maneira como o diretor colocou emoção e comédia no mesmo filme.
Concordo com Wim Wenders, o ser humano precisa de histórias. A história nos dá conforto, a história nos dá sentido! Mas, a história, não se conta somente no enredo. “Há mais verdade na forma do que na história” como diz de maneira arrasadoramente crítica Slavoj Zizek (http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1645148-17665-314,00.html).
Num momento de percepção de um cinema cheio de imagens óbvias, estes três filmes foram uma grata surpresa! E em todos eles a neve, silenciosa, conta sua história...