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sábado, 10 de junho de 2017

Carlos Drummond de Andrade

Sim, agora fica claro que o sujeito de classe de roupas brancas é poeta.
Poeta e tempo no impasse entre o hoje e a eternidade que nunca é? Posto que do tempo só percebemos o agora, é mais esperança do que infinito o que nos faz acreditar que tempo e vida prevaleçam a nossa curta existência. Recheado da possibilidade de permanência e recorrência da vida não retenho nem a minha própria e do tempo só sinto sempre – de fato – hoje.
Se insinua que as coisas mudam de estatuto na mão do poeta – até as palavras adquirem corpo e pele – as coisas tornam-se vida nas mãos do poeta. É a relação dele com elas, não apenas o simples existir delas que as dignifica. Há algo de pretensioso neste poeta? Alguma arrogância? Ou apenas tentativa de sentir-se menos diminuído diminuindo as coisas? Pergunto ao poeta. Mas ele cala e se esconde sob os sulcos crispados da face.
Há uma tensão interessante; há poemas em que o sujeito coloca o cotidiano como uma espécie de alento e de peso a contrabalançar a angústia emocional e existencial dele próprio. Neste poema, mais do que em muitos outros, o que o poeta faz é reivindicar um estatuto da poesia através da apresentação do sujeito poético. Não é o cotidiano que lhe salva, é a própria poesia enquanto olhar que lhe permite lançar sobre este mundo que o cerca. Há uma particular e sensível linha de equilíbrio sobre a qual anda o poeta a contrapor e sustentar em oposição suas angústias e a compra do jornal e do leite. É de seu olhar angustiado sobre o mundo que nasce a poesia, não das palavras sem pele, das palavras formais e em estado de dicionário, estas, são as palavras das palavras-cruzadas. Sim, meu avô todas as manhãs as preenchia na folha de jornal dobrado enquanto comia pão de centeio com salame e queijo e sorvia lentamente sob o bigode café com leite em grossas e antigas xícaras de porcelana arrendondada. Sentava à cabeceira da mesa. Todos os dias. Não havia poesia em suas palavras. Creio que as palavras lhe faltavam. Mas me ensinou a apreciar o cheiro da areia, a imensidão do mar. Me fez amar sem exigências até que atingi a puberdade e amar, lamentavelmente, imperiosamente, tornou-se questão de gênero. Não deixei de ama-lo jamais, sinto sua falta até hoje, em cada domingo, em cada dia de praia, cada jogo de general, cada caipirinha, cada pastel de marisco. Mas, criou-se a distância dos amores recalcados entre nós. Um continente inteiro nos separou no momento da despedida. Baby, ele me chamava. Do mundo de meu avô, afinal creio que pouco sei, posto que tanto se escondia nas palavras que soletrava, nas marcas densas, retas e belas que deixava nas folhas do jornal Correio do Povo.
Como podem afinal meu avô e o poeta tanto terem em comum? E haverá também certa dose de traição nesta exposição não publicada de minha dificuldade em escrever o que deve ser escrito que se equilibra, e cai, com o estrondo do possível no chão de minha vida? A poesia é ocupação: ação de fazer, constituir. Não é inspiração. É labuta diária. Há nela a necessidade do esforço repetido, cotidiano da concretude das ações manuais “e eu sempre acreditei que havia música em seus dedos e poemas de amor em minhas roupas escritas” já havia dito Cecília. Há valor de trabalho, manual mesmo, na poesia. É neste curioso limite que ela se move, entre o concreto e o invisível, entre o real e o imaginário, entre o umbigo e a fantasia, morte e vida.
Sim, sei, caro poeta, que é a tentativa de encontrar-te no fundo de ti mesmo que te afasta de mim, e que esta distância só se cria e se alimenta do amor – ou seu desamor – refeita em ódio. Teu ódio não é teu. É o fermento que cresce sobre tua fadiga de amar. Tua solidão infinda. Que sobrevive e se consola em poemas e xícaras de chá, mas não se supera jamais. Vives, afinal, de movimento. Vives da tensão infinita entre desejar e ter, reter e perder, querer e perder: amor, medo, vida e morte. 



terça-feira, 23 de maio de 2017

Hemingway

Digressão temporal e ponto. Tinham a incrível capacidade de colocar a nu o coração um do outro.  Amavam e sofriam, beijavam mordendo e o inverso na mesma medida. Para eles, comprar frutas nunca era apenas comprar frutas. Nunca era comprar, era frutas. Entre eles havia fios de alta tensão: de medos, de palavras, de escutas, de desejos. Ele lhe tornava imperioso, porque ela assim o amava, ouvi-lo ultrapassando as orelhas de seus pensamentos e sentimentos mais rasos. E esta escuta lhe pedia escrita. Às vezes, cartas, outras vezes, isto. Porém havia certo medo – certa intuição de uma ideia de traição na exposição nua nas folhas em branco. E pensava se deveria disfarçar, esconder, fugir na escrita de si, escrevendo sobre o outro. Mas havia generosidade, pensava. Era generoso o poeta que, ao acessar seus próprios aspectos ou pulsões de origem subjetiva, ao torná-los impulso de criação, ao referir-se a um si mesmo, a um eu ainda que fictício, não era, por escolha, apenas um simples os outros. Escolher falar de si, falar como si, opunha-se à escolha de um eles que destensionaria a relação entre o sujeito e o mundo. Diluíam-se as angústias ao terceirizar-se o olhar, ao apresentar o sentir do humano como algo que é visto de fora por alguma consciência ou deidade sobre-humana. Não, não; era humano o sofrimento. Humano e sofrimento, ponto. A angústia, afinal, só é apresentada em toda sua funesta e densa dimensão quando se trata de nossa própria angústia. Nada se parece mais com a leitura de seu próprio diário – tenha ou não já sido escrito – que a narrativa da angústia em primeira pessoa. Não, nem pense que depois disso vou profissionalmente vir aqui limpar, aparar e polir este texto. Não tenho como, não agora. Talvez daqui a uns 20 anos e aí, com certeza, terei perdido o medo que agora tenho de suas arrogâncias e imperfeições e verei apenas seus brilhos, suas intuições e sua generosidade inata comigo e contigo. Era essa a maneira como viviam o amor, pensava ela sobre si própria, dividindo o mais íntimo segredo que possuíam, a angústia? Assim, houvera uma linda e grandiosa melancolia logo no início. Porque precisava ela ser o mais produtivo? E porque as palavras pareciam mais certeiras e definitivas quando acordavam no meio da madrugada e acomodavam-se sofregamente, sonolentamente na folha branca de papel? O ruído do lápis sobre o papel era visto em sobreposição à lembrança da imagem de dois ou três cadernos de capa azulada e dois lápis e um apontador que, me disseram antes de dormir, Hemingway utilizava para escrever. Foi bonito, mas um pouco desconstrutivo saber, ou mesmo imaginar. Para mim Hemingway era a cara da máquina de escrever. Como é fácil enganar-se com nossas imagens e com as dos outros. No final das contas, o que fiz foi digitar...


sábado, 29 de agosto de 2015

naquele grande livro preto...

desapego                                               
                        pegadas
marcas na areia levam para o mar
pego teu músculo
seguro meu desejo
tudo deságua
através de meus olhos

se o corpo pudesse ser metáfora do desejo que vaga na alma, o amor iluminado pela luz dos teus olhos, absoluto em tal profundidade – incomensurável – que não se traduz em palavras, faz com que até o dedinho do meu pé
te deseje
faz com que cada fio de meu cabelo queira estar banhado em teu cheiro, sentir o avesso de minha carne é tocar tua pele devagar. como se nossos segredos estivessem escondidos naquele leve relevo do teu peito ou na curva da tua orelha. como se meus lábios pudessem ser a benção de minha alma derramo minha alma sobre tua testa devagar...

viver me incomodava tanto que a possibilidade da morte eminente daquela relação – morte de ameaça proporcional à importância que para mim assumia – fazia dela meu vício, meu alento... a sensação de que a vida a seu lado era plena talvez viesse da ideia de que a morte nos rondava permanentemente; como se só houvesse possibilidade de vida plena e absoluta onde morte houvesse. meu devaneio era movimentar-me constantemente – sem um segundo de descanso sequer – entre uma e outra.
era transformar meu cotidiano na afirmação reiterada de minha própria existência. existência que não reconhecia em minha capacidade de respirar – no lento e constante movimento de meu peito – mas na constante alteridade de um universo constituído por opostos – a vida e a morte – e a febre que tal movimento provocava expunha meu próprio delírio. delírio de que fosse tão grande quanto ambas e não apenas uma pequena partícula de cada uma delas.
talvez, parte do desespero, da confusão, fosse resultado da percepção do quanto te desejava e de que tal amor não fosse predestinação. eu já não podia mais assinar embaixo de meus beijos – ainda que a cada dia desejasse beijar-te mais – e a dor profunda que sentia era a dor de meu próprio reverso, era tua dor – dor de alma aprisionada – pois me sabia incapaz de apenas segurar tua mão.
no tortuoso processo de tentar entender o que comigo acontecia, um dia percebi que quanto mais me afastava de ti, mais te reconhecia em mim mesma... e a ausência de predestinação confrontou-me com o fato de que não havia segurança alguma em meu próprio querer (eu que sempre tivera tanta certeza)...

nada era preciso
                                                  além do silêncio
                                                 para contar-te
meus segredos 

domingo, 21 de setembro de 2014

Und dann there's the Hochzeit 2

Não havia nele um pingo de sutileza investigativa. Talvez justamente porque era disto que se tratava: investigar as sutilezas mais inauditas, as mais tênues. Ela, por outro lado, era especialista na organização de todos os ditos, papéis e números inclusive, que faziam parte de suas vidas. Completavam-se de maneira ímpar. Mas, às vezes, ela estava em momento de sequer intuir que certas sutilezas indeléveis na vida havia. Enquanto isto, dele os papéis se acumulavam e a cozinha se tornara o reino abandonado da profusão de potes plásticos. Ela, eles achavam, era capaz até de prever o futuro, mas nem sempre sabia se era nele ou no passado que estava encantada, se era por estar absolutamente presente na profundidade de seu agora. Mas havia, às vezes, esses momentos em que ela conseguia perceber exatamente onde ele estava, ou estivera um dia. Estaria amanhã. Chegavam-lhe como brisa que entra de repente pela janela. Como o frescor brilhante das manhãs de primavera. Chegavam-lhe recheados de palavras que às vezes se organizavam e encontravam lugar rapidamente sobre o papel. Havia algo de epistolar entre eles, ele dissera certa vez. E outras vezes, escreviam cartas. Mas havia também aqueles momentos – eras que eram por vezes – em que estavam em lugares absolutamente distantes, incomunicáveis. A vida era mais simples para os amantes, encontravam-se simplesmente na carne. Eles tinham uma vida marcada por desencontros e momentos iluminados que ainda não controlavam. Ela se perguntava, enquanto escrevia, porque parecia que melhor entendia quando transferia, como se não falasse de si, embora de algum em si o começo da frase sempre partisse. Ainda não havia encontrado teoria literária que lhe explicasse, talvez nem fosse preciso. Precisaria? Entender por que sua escrita era recheada de tantas oposições, tanta indeterminação, tanta instabilidade. Recheava-se de por outros lados, talvezes e sempre que ele começava (senão, geralmente) uma conversa íntima entre eles, sua primeira resposta era: – Não sei. Lembrava, porém, de não ter dito não sei quando ele lhe dissera que não queria uma relação à distância. Ao invés disso lhe perguntou: – O  que sugeres? E ele de alguma forma respondeu: – Acho que devemos morar juntos. Meter os peitos, ou melhor, dar um peitaço, ele disse. Mas havia intranquilidade naquele peito, ela sabia. Ele nem sabia de suas limitações a quilômetros de distância. Daquela cerca que ele criara para se proteger da vida e da qual raramente saia. Costumeiro era vir ao seu encontro como se carregasse uma mala em cada mão. Não, não eram malas de sua mudança. Ou eram. Numa carregava suas dores passadas que ia descobrindo pouco a pouco. Na outra havia alguma dose de desejo embaralhada com um resto de esperança. Às vezes ela tinha a impressão de que a esperança dele era apenas um conceito. Não chegava a ser uma esperança molhada daquelas com que a gente encharca o peito. Gostavam tanto de água, de nadar sob o céu azul ou mesmo no céu nublado. Ela achava-se especialista em porta-malas e bagagens. Achava sempre um jeito de fazer tudo caber dentro do espaço que podia carregar. Organizava papéis e armários. Mas ele, ele parecia estar mais próximo dela – pelo menos ela assim sentia – quando ela se desprendia de qualquer coisa, de quase todas as coisas. Quando mais do que desejar, de fato saía de casa sem bolsa e até sem chave. Coisa que só era possível quando com ele estava. Ele não gostou. Lhe chamou a atenção a certa altura para o fato de que ela deveria carregar suas próprias chaves. Num plano bem prático, ela ficou triste por ver-lhe reivindicando que não tivesse tanta liberdade. Mas sabia da profundidade das metáforas presentes nos pequenos atos do dia a dia e entendia perfeitamente agora o que ele de fato lhe dizia. E, como sempre, em alguma medida, ele tinha razão. Como sempre, em alguma medida, ambos tinham sempre razão. Mas desconfiava também que era por vezes razão demais. Poderia ser diferente? Talvez, à medida em que ela o ajudasse reorganizando as malas, separando os conteúdos em sacos e sacolas menores, dividindo o peso, diluindo a intensidade. Talvez lhes ajudasse se ela pudesse também organizar – sem pressa, sem precisão – sem necessidade imperiosa, seus armários. Essa parte sim seria difícil. Havia dois armários de roupas na casa, era um apartamento de fato, mas como falar do lugar em que mora o coração com essa palavra? Para ela o lugar deles era e seria para sempre casa, mesmo que morassem em um apartamento em andar baixo, em prédio sem elevador, bem pé no chão. Continuava, curiosamente, a sonhar com o que ele chamava de sobreposição de tempos: o apartamento dela e o dele miscigenados. Talvez acontecesse porque ela nesse momento numa casa morava. Esta, porém raramente era seu lugar de encontro. Encontravam-se, de fato, no apartamento dele. Algo chato, ela pensava. Afinal, era uma casa que desejavam. Uma casa antiga talvez com aqueles maleiros amplos de armários embutidos. Seria por isso que ela tanto gostara daquele primeiro apartamento em que com ele morara? Ele lhe recebera tão aberto naquela vez. Abandonara, para as coisas dela, um armário inteiro. E ela, em retribuição, organizou para ele o armário porta, armário-quarto da cozinha. Maleiros que apenas existiriam para colocar malas vazias. Malas recheadas de desejo sem peso de futuro, com futuro sem peso de desejo. 
"[...] abandonar a pulsão do saber, e contentar-se do savoir-faire. A personagem submete sua inteligência ao fazer, ou melhor, ao savoir-faire, que está na base ao mesmo tempo de qualquer construção artística e de nossa convivência com o inconsciente. Em outras palavras, a razão se submete às mãos ou ao corpo considerado como uma força de fora, para descobrir o enigma escondido no rochedo. O gozo do corpo na arte não esconde mais, mas anuncia a verdade artística. Reviravolta total da situação." Philippe Willenmart

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Und dann there's the Hochzeit 1

Gabriel Zehender, "Retrato de um matrimônio", óleo sobre madeira, 1525.
Em: http://www.museothyssen.org/en/thyssen/home