sexta-feira, 30 de agosto de 2013

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

desenhando ontem I



desenhar é equacionar o tempo inteiro inevitáveis equilibrando-os com nossos mais íntimos desejos.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

sábado, 27 de julho de 2013

Cavando um vazio o rasgo se desenha





A obra de Hermes é, sobretudo, convite à busca. Busca pelos lugares menos previsíveis de nossa capacidade de formular: gestos, falas, imagens. Convite à busca de um não lugar que forma-se no entre. Na fissura proposta por Barthes ou no vazio concebido por Didi-Hubermann, busca-se uma significação que se esconde em nossos avessos, no lado de trás, nos sulcos da matéria do papel. Na subversão do papel que deixa de ser um onde para ser!
Na contramão de um tempo que corre rápido demais, que custa dinheiro demais, que escorre em dias não notados, nos devolve a todos, e primeiro a si próprio, o prazer dos lugares o dos tempos da infância. “Às vezes, é necessário puxar as redes para observar o movimento do mar”, afirma Hermes pescador. Eu, criança, acompanhava às vezes meu avô quando ele ia pescar. Não me importavam muito os bagres que depois viravam ensopado para o almoço, ou os papa-terras deliciosamente fritos por minha avó. Creio que, no fundo, o que me interessava era mesmo olhar o mar. O eterno movimento de ir e vir, de ser sempre diferente, sempre imprevisível, e, talvez por isso mesmo, ser sempre o mesmo infinito.
Hoje, penso que o puxar das redes que Hermes nos propõe, é puxar as redes do tempo, parar um pouco o relógio para olhar para dentro: nossos mares interiores, nossas lembranças, nossas infâncias, nossos retalhos, nossos pedaços, nossos rasgos. Nossas imagens internas que se fazem de pedaços rasgados também. Que se formam – curiosamente – não para além do rasgo, na superação do trauma do rasgo; mas por causa do rasgo. Por causa do rasgo, vivemos todos da possibilidade de lidar – como faz Hermes nesses desenhos rasgados – com a imprevisibilidade: a poesia do movimento.
Hermes valoriza o gesto, mas, nesta série, escolhe radicalizar – e nisso opera uma forte desconstrução ideológica – a concepção do gesto na busca daquilo que, de fato, elabora um desenho: a mão. Não é a decisão pensada, mas a mão quem desenha. A forma não está posta, não é conhecida de antemão. A mão que rasga não controla, é conduzida pelo desejo da descoberta. Descoberta no rasgo. Rasgar-se para dentro. Rasgar a forma é elaborar a escuta de seu próprio gesto. Reconhecer seus impulsos. Quais são os desejos que se escondem por baixo da polpa do papel? Que medos, que procuras conduzem a mão que rasga? Mão que não controla, mas descobre. O gesto, descontrolado, em silêncio, na sutil música da polpa que se separa do papel, elabora o rasgo do desenho. Na contramão de nossa ansiedade de tudo controlar, de tudo possuir, de tudo decidir, abre-se o espaço do desenho que, como em muitas obras de arte, se elabora no entre. Entre a vontade de controle e o desejo do gesto. Entre a dureza da decisão e o acaso da energia posta em movimento. No desejo que carrega a mão, quase como uma carícia internalizada nas paisagens do imaginário, elabora-se o desenho do entre. Entre ontem e hoje. Em um entre sempre impermanente, Hermes evita colar. Seus papéis rasgados, sobrepostos, justapostos, intercalados, associados, são delicadamente amontoados, compostos em obras de pedaços soltos que podem se reassociar, realinhar, recompor, predispor, reorganizar num movimento infinito de um sempre que é sempre o mesmo sendo sempre potencialmente outro. Diferença em potência permanente.
Hermes, como o mar, não finaliza. Não acaba. Apenas nos abraça, nos envolve com sua imagem no tempo de três ondas e meia. Ondas que nos convidam a revisitar nossos próprios lugares de infância, nossas lembranças, nosso próprio imaginário. E, por que não, também nossos medos e segredos. Depois, se recolhe novamente. O que virá carregado pela próxima onda? Valentina e Louise bem o sabem: em algum lugar de nós, a infância dura para sempre.
O texto acima foi escrito para a apresentação da exposição "Meus papéis - rasgos e aderências na linha narrativa", exibida por Hermes Bernardi Jr. em maio/junho 2013 no Centro Municipal de Cultura/Atelier Livre de Porto Alegre. A exposição fez parte dos eventos de lançamento do livro "Conchas", de sua autoria, publicado pela editora Edelbra.
Para maiores informações sobre o livro Conchas, acesse: http://loja.edelbra.com.br/conchas.html
Para conhecer mais sobre o trabalho do Hermes em Arte e Literatura, acesse: http://www.hermesbernardijunior.net/
 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Para uma xícara de chá I

Carentes, eles fariam qualquer coisa. Revolveriam orgasmos mortos e enterrados. Ressuscitariam afetos. Pensando nas químicas deixadas de lado, pensando na insegurança que lhe causava a ausência do peso do corpo amado, pensou: que poderia ter se deleitado um pouco mais naquela noite. Que poderia ter se deitado em outra cama agora tão distante dali. Imaginou-se, como na noite seguinte, perdida de si mesma por algumas horas. Perdida de si mesma para outro alguém. E suas lembranças, quais seriam? O que ficara impresso em sua carne? Seria como no dia anterior?
Bêbada. Completamente bêbada. Cinco horas escondida na sombra do sol forte. Cinco horas de intermináveis caipirinhas. Sabor doce-cítrico. Bebeu tanta água salgada do mar. O importante era concentrar-se em não perder a calma. Nadava mar adentro, tonta, tentava respirar calmamente. – Fique calma. Mantenha a serenidade. É o pavor que mata. É o pavor que afoga...
Estava tão bêbada que seu corpo registrara muito pouco daquele momento. Daquela experiência quase redentora que a redimia do passado. Passado sem fôlego. Passado sem calma. A experiência, pensava, podia lhe mostrar – para o futuro – que era capaz de manter-se calma até quando estivesse praticamente inconsciente. Devagar, tentando soltar o ar dentro da água. Baixar a cabeça. Mundo sem fundo. Mundo sem coordenadas. Mundo sem visibilidade. Esverdeado. Lembrou-se, de repente, que havia esquecido aquela paisagem circular, aquela paisagem um degrau acima de onde estava, de ver o mundo ao nível da água profunda do mar.
Foi relembrando que pensou – podia ter me perdido de mim mesma como naquela tarde nadando bêbada no mar.
– Poderia ter estado com ele naquela noite...
Uma noite que fosse mais uma vez – com alguém por apenas uma vez. Foi quando se perguntou: – Então é assim que fazemos para nos sentirmos livres e poderosos? Usando alguém – apenas uma vez – para afastarmos nossos próprios fantasmas?

sábado, 15 de junho de 2013

sábado, 11 de maio de 2013

William Kentridge explica e entrevista: O que é a Arte? Lição de Desenho número 47


http://www.youtube.com/watch?v=9F1hMqJLaVY

Tradução do áudio: Ana Lúcia Beck, a partir de vídeo postado no youtube.

Esta entrevista para o Escola de Artes Estudio NY, acontece no domingo, 3 de outubro às 9...
9:15, da manhã.
9:05, da manhã. Nós temos 3 minutos, então, por favor, tenha em mente respostas sucintas, objetivas, e que sejam acessíveis ao público em geral que está nos ouvindo. Você pode nos descrever a sua vida enquanto artista? Ou melhor, você poderia nos dizer o que você fez hoje que nos dê uma ideia de como você preenche suas horas entre acordar e ir dormir todos os dias? Você tem como nos falar sobre... sobre....
Ok. Tempo... Há tantas coisas com as quais alguém pode começar... mas o tempo é curto para explicar...
[tapando o microfone:] Ele não está dizendo nada que seja interessante, de jeito algum. Ele não está falando sobre a verdade, ou a beleza, ou sobre a verdade mística que é revelada pelo artista. Ele está falando sobre... maionese; molho tabasco! Vamos falar sobre inspiração! Eu quero dizer, você diria que a sua inspiração vem dos céus enquanto cor...
O quê?
... de uma vaca leiteira? Isto é Hopkins...
Eu sei quem é Hopkins. Eu li tudo o que você leu. E mais.
Certo, aqui está a pergunta. Alguém pode ensinar arte?
Sim.
Não. Eu vou tomar nota aqui: não! Quer dizer, ou você tem a habilidade de fazer arte, ou não. Você concorda?
Não.
Eu vou tomar nota: sim! Quer dizer, o que faz você ter um “click”? Quer dizer, será que conseguiremos ter uma palavra verdadeira de você? Estamos esperando aqui para ouvir a resposta!
Eu vou ultrapassar você, ano após ano!
Tá bem, tá bem... você pode pelo menos nos contar como faz o seu trabalho? Quer dizer, talvez seja como uma imagem que você tem em sua cabeça e essa imagem vem vindo, vem descendo em tua direção? Ou você começa com uma folha branca... você começa com uma folha branca de papel e aí, devagarzinho, você encontra esta mídia intermediária entre você mesmo... você mesmo e o mundo que torna possível que você navegue pelos seus cursos... [frase em suspensão; pausa dramática] Realmente, não há validade alguma. Nada! Fraco, fraco... Eu não sei realmente o que ele está fazendo aqui hoje à noite. Isto conclui nossa entrevista!

domingo, 5 de maio de 2013

onde a dignidade
parecer dureza
 
onde a pureza
parecer fraqueza

onde a coragem
parecer loucura

onde as janelas estiverem fechadas
mas o coração aberto

onde a verdade
for o que for

incomodando a quem for
tirando do lugar o que for

lá, onde o incômodo gerar crescimento
e os fundamentos não forem cimento

lá, onde os afagos nem sempre são beijos
o amor escolhe caminhos incertos

onde só existe a certeza
de que não existem certezas

onde a água beija e luz

onde ser um
deixa de ser eu e de ser você

eu estarei
nas esquinas incertas da vida
esquinas incertas
de teu coração