sábado, 21 de março de 2015

Fagulha - por Ana Cristina Cesar

Abri curiosa
o céu.
assim afastando de leve as cortinas.
eu queria rir, chorar,
ou pelo menos sorrir
com a mesma leveza com que
os ares me beijavam.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça,
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando.

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio.

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las.

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.


terça-feira, 10 de março de 2015

a porta


Aquela porta abriu um mundo
porta que era muito mais do que uma porta
muito além de bege, laminada tábua de madeira...

A porta
não separava minha privacidade da tua
ela nos privava do mundo,
da cidade
da verdade.

A porta ali estava
inerte
calada
dividindo em dois
o silêncio estrondoso que vinha do outro lado
separando tuas mágoas mais profundas
de teu sofrimento incansavelmente negado.

Atrás da porta
uma estrela morreu
e a porta me deixou sem endereço
mas me ensinou:
moro no coração do mundo.

Atrás da porta dançavam
um segundo e um século inteiros
adentrando feito vento
teu triste perdido olhar
tua incredulidade
(medo de ser amado?)

A porta nos escancarou todos os nossos medos
nossos segredos mais mesquinhos
e todo desamor que persiste na dor que resiste.

A porta desde sempre soubera
quem éramos
quem seríamos
e me abriu por inteira
quando a abri.

A porta me virou pelo avesso
no avesso do avesso de minha pele
carne exposta
resposta para perguntas que nunca fizera.

E a força
- força que não é necessária para uma porta abrir,
minha não era.
A porta simplesmente abriu-se
tal flor que desabrocha derramando seu perfume sem pedir licença
inundando com seu aroma a tarde inteira
a vida inteira contida naquele abraço
(sim, o brilho do sol inundando teu quarto confundia-se com o perfume e o toque em meus cabelos, e aninhar-me fez-te sentir em casa e completamente grato).

A porta
simplesmente confirmou
que nenhum benefício se encontra em fugir da vida
que nenhuma garantia existe
onde feridas não sangram
e cama nenhuma
por mais cara, macia ou merecida
conforta a alma.

A porta
era o fiel do mundo.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Blue trail - seguindo o azul.














Blue trail at (trilha azul em) The National Gallery: http://www.nationalgallery.org.uk/

sábado, 21 de fevereiro de 2015

No Princípio era o verbo: Albrecht Dürer e Os Quatro Apóstolos

Albrecht Dürer, Os Quatro Apóstolos, pintura a óleo sobre madeira, 1526. 
Albrecht Dürer é uma das mais fascinantes personagens do Renascimento. Nasceu em 1471 e morreu em 1528 no sul da atual Alemanha, na cidade de Nüremberg. Umas das últimas grandes obras que executou foi Os Quatro Apóstolos, pintura a óleo sobre madeira em tamanho natural que ele realizou por vontade própria. O mais comum na época era os artistas executarem obras tão grandes e caras mediante encomenda. Uma vez pronta, doou-a a seus concidadãos, moradores da cidade. Durante algum tempo, a pintura ficou exposta na "prefeitura" às vistas de todos, sendo depois recolhida para a coleção privada de um governante local que retirou da pintura sua parte inferior onde se pode ler trechos transcritos do Novo Testamento. Foi só em 1929 que a pintura, restaurada, ganhou seu lugar definitivo na Alte Pinakothek de Munique (http://www.pinakothek.de/).
Essa pintura sempre me fascinou e recentemente voltei a ela para me deter mais cuidadosamente na relação entre imagem e verbo desenvolvida por Dürer. Essa reflexão foi apresentada no VI Colóquio Sul de Literatura Comparada e está disponível em: http://www.ufrgs.br/ppgletras/pdf/vi_coloquios_lit_comp.pdf


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015



















I wear you and take off the days,
There is no history before your hands,
There is no history after your hands,
They call you the alternative,
I do not have language, between myself and my name there is a country,
And I want to incarnate the trees,
I bear witness that I Have covered my name with silence,
Near the sea...

Mahmoud Darwish: Thats her image and this is the lovers suicide. 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015








“[…] there is [rather] nudity and us, we who are in the very place of lighting; in other words, it is our gaze which, in opening itself upon the nudity of Olympia, illuminates her. […] we are responsible for the visibility and for the nudity of Olympia. […] we are – every viewer finds this – necessarily implicated in this nudity and we are at a certain extend responsible. You see how aesthetic transformation can, in a case such as this, provoke a moral scandal.” Michel Foucault in: Manet and the Object of Painting.