quarta-feira, 20 de maio de 2015

Valquíria

Valquíria quer mais vinho. Mais, mais vinho. Valquíria fria parada no tempo. Vendo o tempo repetir. Olha pela janela, olha a chuva fininha contra as paredes brancas. Embora chova, o céu tem claridade intensa... Valquíria enrolada em um cobertor, sentada junto à soleira da porta, sentindo frio, o coração descompassado. Calor ao mesmo tempo. Valquíria ouvindo o ruído que vem do quarto ao lado, vendo a chuva cair fininha sobre a grama, sobre as árvores de verão com folhas de vários tons diferentes. Valquíria querendo sentir dor. Valquíria quer mais vinho, quer mais tempo, quer mais sexo. Mais discussões mesquinhas em cuja teimosia esconde seu desejo de si mesma. Valquíria quer mais álcool e mais dor. Valquíria quer aquela dor daquele sexo rápido e sem palavras, de estar transando com teu amante enquanto dormes no quarto ao lado. E Valquíria quase disse, em meio á bebedeira, que queria ter teu filho. A chuva passou rápido, rápido como seu desejo. Desejo de correr na chuva. Aquela, aquela durou quase o dia inteiro, entre uma pequena angústia e outra partida de baralho. Valquíria quer álcool e barulho. Valquíria quer te matar.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Ephrem Solomon













Ephrem Solomon's works at the Exibithion Pagaea II
at the Saatchi Gallery.
Obras de Ephrem Solomons em exibição na exposição Pangaea II na Saatchi Gallery.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

e também poderia ter sido no dia em que Léo casou...

Aquilo tudo parecia muito inusitado e pretensioso. Cheirava a comida requentada. Sua cabeça, sua cabeça doía muito. As pílulas... será que as pílulas fariam efeito? Olhou-se no espelho, seu rosto nunca fora tão belo. Parecia que estava de porre ha três dias. Os cabelos caiam pesados em frente a seus olhos. Deixou-se cair, os olhos doíam. Dormiu sobre as folhas do manuscrito. Esse, onde estas linhas estão escritas.

O adeus nunca fora autêntico, era faz de conta, como a brincadeira de contar histórias para seu amado adormecido. Era como a melancolia do desejo e das lágrimas desmaterializadas. Um grande jogo esperando pela próxima jogada. Apenas em seus pensamentos ela era ensaiada. O medo do sofrimento, do sangue e da imaginação; seu amigo e o amante em tesão, desmaterializava-se pouco a pouco. Pouco a pouco seu corpo apodrecia, o útero escorria, e os peitos murchavam. Naquela idade já estava cega e lia as palavras. Uma jovem lhe contara sua história de outra encarnação. A sina de poder apenas escrever sua própria história era o preço do manuscrito. O desespero que fazia a mão deslizar pelo papel, o preço da capa de couro com letras douradas. O sono de menino velado pela mãe sempre estivera distante. Nos seus braços era apenas tremor, terror, pesadelos e decepção. Era o umbigo de laranja estéril. Nas folhas que não pertenciam ao manuscrito escreveu – recopiou. Pois todas as outras palavras jaziam perdidas. As palavras, as palavras que nunca são ditas, mas que são a única verdade plausível dão medo, amedrontam e são serenas. Já podia deixa-las flutuar sem sentir dor. O verbo, afinal não existia, tampouco sonhos. Apenas a fria, por vezes requentada realidade do dia a dia. A falta de espaço, espaço infinito dentro de nós. Palavras que não se sustentavam sozinhas, que pediam a confirmação do olhar, do corpo e do resto de lembranças e desejo adormecido. A sopa esfria na mesa de jantar. Só são corajosas porque não pedem nem dão explicação. Única coisa viva além da soleira da porta. A porta era uma brincadeira de criança. Era o medo do portão. Do lado de fora. Era apenas desconcertante ilusão. Por baixo dela chegavam palavras, chegavam sussurros, mas não se encontravam os corpos. No final de todas as linhas a palavra era – adeus. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

it does
does not
it doesn’t interfere
does not make any difference at all
there is nothing else
but air, thin time
dust
between you and me
everything unfold
folded like fresh linen
dark blue cotton linens under the bed
under everyday
every sunshine which touched my skin
my body lying on your bed
and you told me
oh yes you told me
– give yourself to me.
And, oh yes, so I did.
Did you see?
no, you probably didn’t.
as much as you don’t know when the trash truck comes
you did not notice at all
that point exactly where the sun falls down
there where night rises
and it might even be
that you didn't even see
no you didn’t see at all
all the love there was there
all that was given to you to me.
yes I told you as I folded your shirts
guitar magazine oriented
how so much of it all
would always surpass
whatever effort we had made
because the beauty lied within
besides being unpredictable
being given
not taken, nor granted
like all love should live. 

domingo, 26 de abril de 2015

18_4_92

metade do que vemos são aparências
(aparências de verdade)
metade do que falamos mentiras
metade do que ouvimos
não percebemos com os ouvidos
e metade do que sentimos
é pura ilusão
(ilusões de verdade)
metade do que se vive é sonho
e metade da vida
é morte

quarta-feira, 22 de abril de 2015

And if sometimes before all I wished for was to keep
to hold and never forget
slowly
as the days passed by,
all I wished for
as much as this feeling was soaked into sad tears which never left my eyes
was to forget

to let everything go away
to let it all follow whatever star’s light into oblivion
to let every memory, every word, every kiss
disappear into dust

there was no difference at all
if in the dust of my own going away steps
the dust your bike leaves behind itself on the road
nor the dust from any other galaxy far away
dust from body, movement or gear
dust as gold
diminishing it all
into billions of tiny subatomic pieces

My heart was still in one
but everything else felt apart
and nothing from it all wished I to retain
nor even words
though I needed them
I need these
no, not to keep
but rather to enable my thoughts to return to dust and forgivenes

forgetfulness…

sábado, 18 de abril de 2015

5_4_92

é melhor que ela pense
que ainda não acordei
é melhor que todos pensem
que ainda estou morta
enquanto apodreço

desapego
num mundo visível
me perco entre mil gentes
mil risadas
das casas alheias
mil ternuras
amargas
envelhecidas
de estação em estação

relógio sem areia
sem tempo

apenas dor
de vidro quebrado
pedaços perdidos
na areia do mar

nu
sem coragem de ver
com demais para sentir
envolto em sal
na areia

brancura
transparente
tuas vísceras são roxas
teu desespero vermelho
meus olhos também

pedaço do mar.


terça-feira, 14 de abril de 2015

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Todas as linhas de Louise (Louise Bourgeois - Works on paper).












todas as marcas na tua pele
rastros de tuas dores
feito  linhas 
do tempo passado.


Esta série fotográfica se concentra nos detalhes dos desenhos executados por Louise Bourgeois no anos finais de sua vida. Sobretudo, trata-se de enxergar a composição, o caráter, o perfil, vida e morte de suas linhas. Os detalhes são de obras apresentadas na exposição "Louise Bourgeois - Works on Paper" com curadoria de Ann Coxon, em cartaz na Tate Modern entre junho de 2014 e abril de 2015. Para maiores infomações, acesse: http://www.tate.org.uk/whats-on/tate-modern/display/louise-bourgeois-works-on-paper