quarta-feira, 25 de outubro de 2017

magnolia grandiflora

há um rastro
de teu desejo
em meu cheiro
um traço
do teu toque em meus cabelos
uma marca
indelével no travesseiro
há,
sobretudo,
um encontro que me acalma
- me lava a alma –
feito o aroma
magnólia grandiflora
do ruídos das cigarras
nestas quentes
úmidas
noites tardias de primavera


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

2 3 4 9


Nothing had actually happened 
yet everything 
absolutely everything
had for ever changed

Sometimes it takes you four different continents 
or maybe just one last ferry trip of an hour and a half
sometimes reading hundreds of books
and analysing thousands of images
finishing a PhD thesis

knowing the Other
in depths of various smells and skins
in bright ever changing lights
verschiedene horizon lines
sunset and sundown times...

Yet all of a sudden

all you thought you had already grasped
will gently melt
smoothly accommodating
an unsuspected part of your own self
in that discreetly shining star
in your eyes...

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Carlos Drummond de Andrade - II

A certa altura, perdi o fio deste lugar inspirado que me guiava. Quando foi exatamente, não sei. Perdeu-se a vontade de poesia, de lê-la, de pensá-la, de senti-la, dispersa que fui pelos dias de céu azul. Já dizia Bachelard que são os dias de chuva os dias de ler poesia. Dias depois a chuva e frio voltaram, mas não bastaram para recuperar O estado poético em que me encontrava, aquele em que as palavras fluíam, desciam em cascata como a chuva pelas frestas do telhado. Choveu muito e sem parar naqueles dias. E a necessidade de terminar a leitura – não silenciosa – tornou-se algo com o peso de qualquer trabalho braçal, mas com o incômodo da exigência mental. Da segunda categoria das aflições no processo criativo, apresenta-se a aflição de tornar a poesia, a escrita, a produção, algo pronto, com alcance definido. Passara-se a angústia daqueles dias de existência. A monotonia das refeições era somente monotonia quando deixava de ser o que se contrapunha à angústia. Quando tudo no mundo achava se lugar “era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas, pois a vida completa e bela e terna ali já estava”. Esse tempo, porém, que me invade, seria o que invade o poeta? 
Sendo ou não o mesmo tempo, “Versos à boca da noite” marca em vários simbolismos e fatos a percepção de certa quantidade de tempo vivido e de percepções e aprendizagens, algumas adquiridas, outras perdidas. A compra da vida em sal, rugas e cabelo, marca definitivamente que o poeta algo dá para viver. Nesse sentido, o poeta finalmente aproxima-se dos outros homens, da humanidade. Vertemos todos lágrimas, ganhamos todos rugas e perdemos cabelos, tanto mais quanto mais vivemos. Desta maturidade anunciada do poeta, não somente a poesia, mas o viver de todos nós, compõe-se de dádivas (achados, encontros) e doações (trabalho, suor, lágrimas). O poeta indica, certo equilíbrio na vida. E, na compreensão de tal equilíbrio, um derradeiro, final apaziguamento.

sábado, 10 de junho de 2017

Carlos Drummond de Andrade

Sim, agora fica claro que o sujeito de classe de roupas brancas é poeta.
Poeta e tempo no impasse entre o hoje e a eternidade que nunca é? Posto que do tempo só percebemos o agora, é mais esperança do que infinito o que nos faz acreditar que tempo e vida prevaleçam a nossa curta existência. Recheado da possibilidade de permanência e recorrência da vida não retenho nem a minha própria e do tempo só sinto sempre – de fato – hoje.
Se insinua que as coisas mudam de estatuto na mão do poeta – até as palavras adquirem corpo e pele – as coisas tornam-se vida nas mãos do poeta. É a relação dele com elas, não apenas o simples existir delas que as dignifica. Há algo de pretensioso neste poeta? Alguma arrogância? Ou apenas tentativa de sentir-se menos diminuído diminuindo as coisas? Pergunto ao poeta. Mas ele cala e se esconde sob os sulcos crispados da face.
Há uma tensão interessante; há poemas em que o sujeito coloca o cotidiano como uma espécie de alento e de peso a contrabalançar a angústia emocional e existencial dele próprio. Neste poema, mais do que em muitos outros, o que o poeta faz é reivindicar um estatuto da poesia através da apresentação do sujeito poético. Não é o cotidiano que lhe salva, é a própria poesia enquanto olhar que lhe permite lançar sobre este mundo que o cerca. Há uma particular e sensível linha de equilíbrio sobre a qual anda o poeta a contrapor e sustentar em oposição suas angústias e a compra do jornal e do leite. É de seu olhar angustiado sobre o mundo que nasce a poesia, não das palavras sem pele, das palavras formais e em estado de dicionário, estas, são as palavras das palavras-cruzadas. Sim, meu avô todas as manhãs as preenchia na folha de jornal dobrado enquanto comia pão de centeio com salame e queijo e sorvia lentamente sob o bigode café com leite em grossas e antigas xícaras de porcelana arrendondada. Sentava à cabeceira da mesa. Todos os dias. Não havia poesia em suas palavras. Creio que as palavras lhe faltavam. Mas me ensinou a apreciar o cheiro da areia, a imensidão do mar. Me fez amar sem exigências até que atingi a puberdade e amar, lamentavelmente, imperiosamente, tornou-se questão de gênero. Não deixei de ama-lo jamais, sinto sua falta até hoje, em cada domingo, em cada dia de praia, cada jogo de general, cada caipirinha, cada pastel de marisco. Mas, criou-se a distância dos amores recalcados entre nós. Um continente inteiro nos separou no momento da despedida. Baby, ele me chamava. Do mundo de meu avô, afinal creio que pouco sei, posto que tanto se escondia nas palavras que soletrava, nas marcas densas, retas e belas que deixava nas folhas do jornal Correio do Povo.
Como podem afinal meu avô e o poeta tanto terem em comum? E haverá também certa dose de traição nesta exposição não publicada de minha dificuldade em escrever o que deve ser escrito que se equilibra, e cai, com o estrondo do possível no chão de minha vida? A poesia é ocupação: ação de fazer, constituir. Não é inspiração. É labuta diária. Há nela a necessidade do esforço repetido, cotidiano da concretude das ações manuais “e eu sempre acreditei que havia música em seus dedos e poemas de amor em minhas roupas escritas” já havia dito Cecília. Há valor de trabalho, manual mesmo, na poesia. É neste curioso limite que ela se move, entre o concreto e o invisível, entre o real e o imaginário, entre o umbigo e a fantasia, morte e vida.
Sim, sei, caro poeta, que é a tentativa de encontrar-te no fundo de ti mesmo que te afasta de mim, e que esta distância só se cria e se alimenta do amor – ou seu desamor – refeita em ódio. Teu ódio não é teu. É o fermento que cresce sobre tua fadiga de amar. Tua solidão infinda. Que sobrevive e se consola em poemas e xícaras de chá, mas não se supera jamais. Vives, afinal, de movimento. Vives da tensão infinita entre desejar e ter, reter e perder, querer e perder: amor, medo, vida e morte. 



terça-feira, 23 de maio de 2017

Hemingway

Digressão temporal e ponto. Tinham a incrível capacidade de colocar a nu o coração um do outro.  Amavam e sofriam, beijavam mordendo e o inverso na mesma medida. Para eles, comprar frutas nunca era apenas comprar frutas. Nunca era comprar, era frutas. Entre eles havia fios de alta tensão: de medos, de palavras, de escutas, de desejos. Ele lhe tornava imperioso, porque ela assim o amava, ouvi-lo ultrapassando as orelhas de seus pensamentos e sentimentos mais rasos. E esta escuta lhe pedia escrita. Às vezes, cartas, outras vezes, isto. Porém havia certo medo – certa intuição de uma ideia de traição na exposição nua nas folhas em branco. E pensava se deveria disfarçar, esconder, fugir na escrita de si, escrevendo sobre o outro. Mas havia generosidade, pensava. Era generoso o poeta que, ao acessar seus próprios aspectos ou pulsões de origem subjetiva, ao torná-los impulso de criação, ao referir-se a um si mesmo, a um eu ainda que fictício, não era, por escolha, apenas um simples os outros. Escolher falar de si, falar como si, opunha-se à escolha de um eles que destensionaria a relação entre o sujeito e o mundo. Diluíam-se as angústias ao terceirizar-se o olhar, ao apresentar o sentir do humano como algo que é visto de fora por alguma consciência ou deidade sobre-humana. Não, não; era humano o sofrimento. Humano e sofrimento, ponto. A angústia, afinal, só é apresentada em toda sua funesta e densa dimensão quando se trata de nossa própria angústia. Nada se parece mais com a leitura de seu próprio diário – tenha ou não já sido escrito – que a narrativa da angústia em primeira pessoa. Não, nem pense que depois disso vou profissionalmente vir aqui limpar, aparar e polir este texto. Não tenho como, não agora. Talvez daqui a uns 20 anos e aí, com certeza, terei perdido o medo que agora tenho de suas arrogâncias e imperfeições e verei apenas seus brilhos, suas intuições e sua generosidade inata comigo e contigo. Era essa a maneira como viviam o amor, pensava ela sobre si própria, dividindo o mais íntimo segredo que possuíam, a angústia? Assim, houvera uma linda e grandiosa melancolia logo no início. Porque precisava ela ser o mais produtivo? E porque as palavras pareciam mais certeiras e definitivas quando acordavam no meio da madrugada e acomodavam-se sofregamente, sonolentamente na folha branca de papel? O ruído do lápis sobre o papel era visto em sobreposição à lembrança da imagem de dois ou três cadernos de capa azulada e dois lápis e um apontador que, me disseram antes de dormir, Hemingway utilizava para escrever. Foi bonito, mas um pouco desconstrutivo saber, ou mesmo imaginar. Para mim Hemingway era a cara da máquina de escrever. Como é fácil enganar-se com nossas imagens e com as dos outros. No final das contas, o que fiz foi digitar...


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Understanding


The years of my youth, my sensual life –
How clearly I see their meaning now.

What needless repentances, how futile…

But I did not understand the meaning then.

In the dissolute life of my youth
The desires of my poetry were being formed,
The scope of my art was being plotted.

This is why my repentances were never stable.
And my resolutions to control myself, to change
Lasted for two weeks at the most. 

(Constantine Cavafy)


Alexandria Photograph via The New York Public Library Digital Gallery

sábado, 1 de abril de 2017






















Oh yes that little bee
would dive into my very sweet caipirinha
home made sugar cane liquor and all
– as much as others in little expresso cups –
with the same insistence
the exact same resilience and fate
always again 
and again
regardless of its contents
or of the failure carved in each attempt

In every single one of these
whilst I watched the coming back and forth waves
in anything slightly smelling like love
effortlessly shining like gold
even in every gray variation
which could not really be perceived
as either sea or sky
I would dive as well

I would have to however say
that at one sip
amidst changing growing tall waves
and children running
and grownups being brave and charming amidst the snow
– I mean the sand –
that I found it dead
very dead

sink
in my only sweet treat
my very own forgotten dreams

segunda-feira, 13 de março de 2017

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

As histórias são o pão de cada dia do espírito

CAVA (Wilson Cavalcanti), xilogravura.


Mensagem da Paraninfa aos alunos formandos em Artes Visuais em 2011/2, em 20 de Janeiro de 2012:

Boa noite senhoras e senhores, estimados afilhados e demais formandos,

Wim Wenders, que é um grande cineasta e artista plástico alemão e um maravilhoso contador de histórias, em um de seus depoimentos no filme Janela da Alma, fala sobre a importância das histórias para o ser humano. Nesta fala ele lembra que contar e ouvir histórias é uma das mais básicas necessidades do ser humano, não importa a idade. As histórias nos confortam, diz ele. As histórias elaboram significados. Nos aquecem. Para nós, afinal, não basta viver. Precisamos significar nosso viver. Não importa, portanto, se a história é a História oficial ou se é a estória. Se está inscrita em livros ou na paisagem ao nosso redor. Se está descrita em palavras ou inscrita em imagens. Em qualquer forma, tempo e lugar, continuam sendo necessárias.

As histórias são o pão de cada dia do espírito.

No universo da criação, criar histórias é achar desenhos para os desejos, é inventar palavras para os sonhos.

Não, meus afilhados, não lhes darei hoje conselhos. Apenas lhes presentearei um desejo.
Lhes desejo que pela vida afora, na sala de aula ou fora dela, saibam sempre valorizar e incentivar as histórias. Que vocês possam, no seu exercício de professores, contribuir para que cada um saiba contar suas próprias histórias. Que possam contribuir para que cada um seja o escritor e ilustrador do livro de sua própria vida.
Além disso, só e que posso desejar é que as histórias gravadas na memória de cada um possam contar:

Como receber a vida de braços abertos
Confiar que o destino também saberá escolher por nós
que devemos olhar para os lados de vez em quando
Como olhar as estrelas sem perder o equilíbrio
e andar na corda bamba entre desejos e medos
A arte de encher os pulmões de coragem e as asas de persistência
A não esmorecer nem perder as forças por mais longa que seja a estrada
Da necessidade de recolher-se de vez em quando em si mesmo
assim como inclinar-se e pedir ajuda sempre que necessário
Que mesmo os presentes da vida precisam ser editados
Voltar-se ao próprio coração
Ah e festejar a liberdade
Festejar a liberdade!

Boa noite, meus queridos, feliz jornada!

PS: Esta mensagem foi inspirada em uma série de 11 xilogravuras de Wilson Cavalcante, mais conhecido como Cava, gravador gaúcho, professor no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre. Cada um dos formandos ganhou uma destas xilogravuras de presente.