Amei todos eles cada um completamente do início ao fim. Mas nenhum me pertenceu. Pertenço apenas a mim mesma. O tesão? A paixão? É apenas meu desejo projetado na tua pessoa. E quando acaba a projeção, meu bem, tudo tuto é finito infinito. Superar um amor – sua dor –
é sempre superar a si próprio – fim –
terça-feira, 5 de abril de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
há dias em que me alojo nas profundezas de mim mesma
e fico ali pelos cantos sem móveis de minha casa
mergulhada em nebulosas pré-imagens de pensamentos densas e rarefeitas feitas de um não sei quê que me toma me mergulha me enche inteira
os cheiros das casas de madeira, o som da praia, o cheiro da areia...
Viver sem arrependimentos é grande, e grave, no sentido sonoro do termo!
Em sua história,
em seus medos,
até em seus desejos não realizados...
Silêncio ou barulhos,
mar,
ou vizinhos cantando desafinadamente – Raul,
Tanto fazia...
Permanecia, apenas,
sereno
o cheiro de grama cortada
e o cheiro do mar!
sábado, 8 de janeiro de 2011
porque me olhas com esses olhos?
- são os únicos que tenho.
porque me olhas tanto?
- para te conhecer melhor.
porque queres me conhecer melhor?
- para te enxergar com teus olhos!
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
A pergunta certa é:
"Devo ou não devo?"
ou
"Quero ou não quero?"
Se escolho a primeira, não sei qual é a resposta.
...Quanto à segunda, não tenho dúvidas.
domingo, 21 de novembro de 2010
for that sweet delicate feeling
came the gaze of existence
a Kiss from eternity
and a flavor
with no past
no regret
no suffering at all
had it been raining
or not
wouldn’t have made
the slightest difference
for that loving care
for now there was
impossible
to feel or think
in matters of time…
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
aos poucos desenvolveu
uma tara por placas de trânsito
um desejo por não-lugares
indicandocontradições sutis que tornavam-se fina ironia
não queria sabores óbvios
nem conclusões gratuitas.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
os melhores pensamentos
nasciam na compreensão
do próprio desconforto
do próprio sofrimento
era necessário
deixar-se doer de prazer...
sábado, 25 de setembro de 2010
durante 13 anos das janelas de meu apartamento via logo ali a poucos metros dois ou três as janelas da sala e do dormitório do prédio ao lado quase geminado de planta coincidente com a minha cuja janela da sala era na realidade uma porta de vidro que se abria para uma pequena sacada quase suspensa no ar as janelas que via da minha janela estavam sempre sempre fechadas até o dia em que - num domingo de manhã - vi a vizinha pelo menos imaginei que fosse a habitante daquele apartamento limpando quase virginianamente os vidros foi impossível não sorrir e pensar com certo pesar na importância dada à limpeza de um vidro através do qual nunca olhava...
Eu devia ter uns 13 anos mais ou menos. Lembro que foi na época em que a minha melhor amiga se chamava Roberta e eu estudava em uma escola municipal. Da escola até a minha casa eram uns dois quilômetros, caminhados diariamente para ir e para voltar. Da época em que, obviamente, havia uma menina mais popular, fina bonita na escola, chama-se Juliana, para testar meu amor próprio. Acho que não passei no teste.
Deve ter sido num sábado à tarde, como hoje. Mas isso afinal não faz muita diferença. Há dias, seja em que dia da semana sejam, que são sábados à tarde. Têm o universo de possibilidades e promessas dos sábados, são levemente melancólicos, embora não tão depressivos quanto os domingos à tarde...
Naquela época, também a casa dos meus pais era incompleta e a porta dos fundos estava exposta à todas as interpéries.
Naquela tarde minha amiga Roberta apareceu, de carona em uma carroça. Não me lembro se cheguei a ver a carroça de dentro de casa. Se o fiz, devo tê-lo feito enquanto lavava a louça do almoço. Afinal, a janela da cozinha ficava em frente à pia. Da pia da cozinha da casa de meus pais via a paisagem. A pia da cozinha tinha a melhor vista da casa. A mais ampla, a que descortinava a rua e o morro em frente. Tão diferente da casa com a qual havia sonhado. A casa projetada e que nunca foi construída que era toda voltada para os fundos. Na casa real, na casa possível, na casa construída, a janela para a frente era a janela da cozinha. Talvez aquela janela tenha feito de mim a pessoa divagante e observadora que sou. Afinal, eu era a encarregada de lavar a louça mais trabalhosa e em maior quantidade – pelo menos foi isso que sempre pensei – a louça do almoço. Da janela da cozinha, lavando todos os dias a louça do almoço, via a rua, via o morro. Via as janelas minúsculas da casa do colega mais inteligente da turma. Por ele eu estava interessada? Não sei. Talvez sim, de alguma forma. Ficava divagando que ele, moço de nome composto feito mocinho de novela mexicana, também podia enxergar minha janela. A minha janela vista da janela dele...
Pois naquela tarde, mais ou menos assim ou não, pois não lembro ao certo como foi, mas tenho certeza de como poderia ter sido, chegou Roberta de carona na carroça.
Na carroça de um outro colega, cujo nome durante anos não consigo relembrar, que, naquela tarde soube, estava “afim” de mim. Engraçado dizer que ele estava a fim, ou seria afim, de mim considerando que esta não era a expressão usada na época. Mas, escondida da vista da frente da casa, na porta exposta dos fundos, conversei com Roberta. E Roberta me disse que ele, o colega, havia passado em sua casa, e havia pedido a ela, que viesse até minha casa, para que eu soubesse, que ele estava afim de mim. Congelei na porta. E, lembro vagamente, disse a ela qualquer coisa que incluía uma negativa, um não.
Pela janela, creio, espiei enquanto a carroça se afastava com ele e com Roberta. Enquanto a carroça diminuía e minha culpa aumentava...
A culpa de dizer não. Não à carroça, não ao menino humilde, não a alguém que havia demonstrado interesse por mim? Não sei. Somente sei que foi um não. Um não cheio de culpa, um não envergonhado. Um não sem noção.
Quase trinta anos se passaram. E hoje é sábado. E foi numa conversa de sábado à tarde que percebi. Percebi ao voltar para casa. Minha casa cuja janela da cozinha avista a sala de jantar e a sala de estar. Minha casa estranhamente ambígua. Minha casa voltada para ela mesma e ainda assim para fora. Depois de sair pelo bairro e andar a esmo com uma amiga e conversar com ela sobre a casa onde me sinto em casa. Que é outra casa cujas janelas divisam o ponto de fuga de uma longa rua que acaba em praça, mas isso, quando olhamos de lado, de frente, pelo menos da cama em cujos braços me sinto em casa no universo, diviso a torre de uma Igreja. Igreja anexa a uma escola e a um abrigo de loucos... mas isso é outra história.
Em todo caso, depois da conversa com ela. E depois de ter percebido que preciso dizer um outro não. Um outro não para outra pessoa que tantos anos depois me provocou o mesmo sentimento de constrangimento. E depois de perceber que meu constrangimento era apenas a vergonha pela minha própria vergonha, percebi:
Ser feliz é não ter vergonha de sua própria vergonha!
Tenho direito ao não. Se o não foi correto, ou errado, cheio de medo ou legitimamente intuitivo de um outro futuro que quero para mim, tenho direito ao não. E tenho direito à vergonha. Tenho direito aos meus medos, tanto quanto aos meus desejos. Tenho direito à minha sabedoria, tanto quanto à minha ignorância. Tenho direito à vergonha, tanto quanto ao amor. Amanhã, ou depois, preciso dizer a outra pessoa – não. Mas, curiosamente, poder dizer este não me libertou da culpa de um não que carrego ha tantos anos.
Talvez, finalmente, possa deixar a Roberta ir embora de carona na carroça!
Art History and Theory Lecturer at FAV/UFG. Phd in Comparative Literature (UFRGS, Brazil), Visitor Research Student at King’s College London. Master in Art History, Theory and Criticism.
I’m an artist interested in drawing, photography, poetry, embroidery and others witch could be understood under the idea of drawing in contemporary art. I also taught Art courses for 13 years at ULBRA.
Professora de história e teoria da Arte na FAV/UFG. Doutora em Estudos Literários/Literatura Comparada pela UFRGS. Pesquisadora visitante no King's College London. Mestre em História, Teoria e Crítica da Arte pela UFRGS. Bacharel em Desenho. Ex-Professora Titular no Curso de Licenciatura em Artes Visuais da ULBRA.
Me interessa uma idéia ampla de desenho. Desenho enquanto imagem e movimento mental. Desenho que se produz em imagem, em verbo e nos limites entre as linguagens. Nos limites entre a percepção e a razão. Todas as postagens (salvo indicação em contrário) são de conteúdos de minha produção plástico-verbal-visual e estão protegidos pela legislação de direitos autorais.
Contato: analuciabeck@gmail.com