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sábado, 30 de abril de 2011

uma cidade é um universo
verso feito
fato

sábado, 9 de abril de 2011

Amei todos eles
cada um completamente
do início ao fim.
Mas nenhum me pertenceu.
Pertenço apenas
a mim mesma.
O tesão?
A paixão?
É apenas meu desejo
projetado na tua pessoa.
E quando acaba a projeção,
meu bem,
tudo
tuto
é finito
infinito.
Superar um amor
– sua dor –
é sempre

superar
a si próprio
– fim –

terça-feira, 5 de abril de 2011

sexta-feira, 18 de março de 2011

há dias em que
me alojo
nas profundezas
de mim mesma

e fico ali
pelos cantos
sem móveis
de minha casa

mergulhada em nebulosas
pré-imagens
de pensamentos
densas e rarefeitas
feitas
de um não sei quê
que me toma
me mergulha
me enche inteira

terça-feira, 15 de março de 2011

quinta-feira, 10 de março de 2011

quero o barulho da chuva
na pele
quero o tempo lento
do teu beijo

domingo, 27 de fevereiro de 2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

na beira d'água
na margem do tempo
a sombra da vida
cedia
enfim

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O encontro e a poesia






















Am näschsten tag, als wir aufwachten, saget er:
Ich freue mich schon nach Hause rück zu kehren,
zum mein organizierstes Leben.
Heute, würde ich ihn antworten:
– Caos is poetry.

resta
apenas
o amor
 – silêncio –
resting in his arms...

todo mundo têm
sua parcela de natureza morta
todo mundo têm
suas condutas tortas
todos temos
um pouco de medo
temperando o desejo
e um pouco de tristeza
– brilhando no olhar –
a quem amamos

e temos os segredos
e sentimentos
que guardamos
 – até mesmo –
de nós mesmos

todos
nos equilibramos
entre contradições
incoerências
inconsistências
resistências

e perdemos todos
um pouco de serenidade
por ódio, por amor, por paixão

resta,
apenas,
o que guardamos
no coração,
no pulmão,
ao alcance da mão

resta apenas abraçar
as renúncias do amar...

domingo, 16 de janeiro de 2011

Tem dias de abrir todas as janelas
de deixar os vizinhos verem
o que quer que seja.
Quem se importa
com tua auto-imagem torta?

Tem dias em que só importa
o aqui,
o agora.
Dias em que se percebe
que é agridoce
o sabor
da maturidade.

Afinal,
ela decidiu
ficar ali mesmo.
Cansou,
pensou,
de correr atrás da vida.
Se algo mais havia
para lhe dar
 - que viesse a vida a correr atrás de si.
Porque dali não sairia.
Feliz que estava
de viver
em si mesma.

Percebeu
que a maturidade tinha sabor agridoce.
Grande parte do que aprendera a valorizar
já havia passado.
Pessoas, amigos, amores, avós, primos, praias, casas, cidades.
As comidas que a avó fazia,
os cheiros das casas de madeira, o som da praia, 
o cheiro da areia...
Viver sem arrependimentos é grande, e grave, 
no sentido sonoro do termo!

Em sua história,
em seus medos,
até em seus desejos não realizados...
Silêncio ou barulhos,
mar,
ou vizinhos cantando desafinadamente – Raul,
Tanto fazia...

Permanecia, apenas,
sereno
o cheiro de grama cortada
e o cheiro do mar!

sábado, 8 de janeiro de 2011

porque me olhas com esses olhos?
- são os únicos que tenho.
porque me olhas tanto?
- para te conhecer melhor.
porque queres me conhecer melhor?
- para te enxergar com teus olhos!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010


A pergunta certa é:
"Devo ou não devo?"
ou
"Quero ou não quero?"
 

Se escolho a primeira, não sei qual é a resposta.

...Quanto à segunda, não tenho dúvidas.

domingo, 21 de novembro de 2010

for that sweet delicate feeling
came the gaze of existence
a Kiss from eternity

and a flavor
with no past
no regret
no suffering at all

had it been raining
or not
wouldn’t have made
the slightest difference
for that loving care

for now there was
impossible
to feel or think
in matters of time…

segunda-feira, 1 de novembro de 2010













aos poucos desenvolveu
uma tara por placas de trânsito
um desejo por não-lugares
indicando contradições
sutis 
que tornavam-se fina ironia
não queria sabores óbvios
nem conclusões gratuitas.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

os melhores pensamentos
nasciam na compreensão
do próprio desconforto
do próprio sofrimento
era necessário
deixar-se doer de prazer...

sábado, 25 de setembro de 2010






















durante 13 anos
das janelas de meu apartamento
via logo ali a poucos metros
dois ou três
as janelas da sala e do dormitório do prédio ao lado
quase geminado
de planta coincidente com a minha
cuja janela da sala
era na realidade uma porta de vidro
que se abria para uma pequena sacada
quase suspensa no ar
as janelas que via da minha janela
estavam sempre
sempre fechadas
até o dia em que
-  num domingo de manhã - 
vi a vizinha
pelo menos imaginei que fosse a habitante daquele apartamento
limpando quase virginianamente os vidros
foi impossível não sorrir
e pensar
com certo pesar
na importância dada à limpeza de um vidro
através do qual
nunca olhava...

sábado, 21 de agosto de 2010























O cansaço lhe tirava a fome
lhe roubava o desejo de alento

decidiu ater-se aos fatos,
cansada que estava de adjetivar a vida

havia dias em que lhe roubavam
a melodia dos pensamentos
de si escutava apenas o vazio
que reverberava no sofrimento alheio

o cansaço lhe impedia
de chorar
de sorrir
de sonhar
de dormir

este cansaço era apenas
vácuo da existência

quando cansava da vida
sentia-se confortável muito longe de casa

o cansaço lhe retirava
o sentido do meu, seu, teu
era tudo e todos ao mesmo tempo

percebia o cansaço
nos sorrisos alheios

naqueles dias
poucos “bom dia”
mudavam seu dia

respondia sorrindo
mas no fundo
emudecia
e tirava rugas do tecido da vida
com vapor quente

sábado, 13 de março de 2010

Carroças, janelas e outros recortes da memória



Eu devia ter uns 13 anos mais ou menos. Lembro que foi na época em que a minha melhor amiga se chamava Roberta e eu estudava em uma escola municipal. Da escola até a minha casa eram uns dois quilômetros, caminhados diariamente para ir e para voltar. Da época em que, obviamente, havia uma menina mais popular, fina bonita na escola, chama-se Juliana, para testar meu amor próprio. Acho que não passei no teste.
Deve ter sido num sábado à tarde, como hoje. Mas isso afinal não faz muita diferença. Há dias, seja em que dia da semana sejam, que são sábados à tarde. Têm o universo de possibilidades e promessas dos sábados, são levemente melancólicos, embora não tão depressivos quanto os domingos à tarde...
Naquela época, também a casa dos meus pais era incompleta e a porta dos fundos estava exposta à todas as interpéries. 
Naquela tarde minha amiga Roberta apareceu, de carona em uma carroça. Não me lembro se cheguei a ver a carroça de dentro de casa. Se o fiz, devo tê-lo feito enquanto lavava a louça do almoço. Afinal, a janela da cozinha ficava em frente à pia. Da pia da cozinha da casa de meus pais via a paisagem. A pia da cozinha tinha a melhor vista da casa. A mais ampla, a que descortinava a rua e o morro em frente. Tão diferente da casa com a qual havia sonhado. A casa projetada e que nunca foi construída que era toda voltada para os fundos. Na casa real, na casa possível, na casa construída, a janela para a frente era a janela da cozinha. Talvez aquela janela tenha feito de mim a pessoa divagante e observadora que sou. Afinal, eu era a encarregada de lavar a louça mais trabalhosa e em maior quantidade – pelo menos foi isso que sempre pensei – a louça do almoço. Da janela da cozinha, lavando todos os dias a louça do almoço, via a rua, via o morro. Via as janelas minúsculas da casa do colega mais inteligente da turma. Por ele eu estava interessada? Não sei. Talvez sim, de alguma forma. Ficava divagando que ele, moço de nome composto feito mocinho de novela mexicana, também podia enxergar minha janela. A minha janela vista da janela dele...
Pois naquela tarde, mais ou menos assim ou não, pois não lembro ao certo como foi, mas tenho certeza de como poderia ter sido, chegou Roberta de carona na carroça.
Na carroça de um outro colega, cujo nome durante anos não consigo relembrar, que, naquela tarde soube, estava “afim” de mim. Engraçado dizer que ele estava a fim, ou seria afim, de mim considerando que esta não era a expressão usada na época. Mas, escondida da vista da frente da casa, na porta exposta dos fundos, conversei com Roberta. E Roberta me disse que ele, o colega, havia passado em sua casa, e havia pedido a ela, que viesse até minha casa, para que eu soubesse, que ele estava afim de mim. Congelei na porta. E, lembro vagamente, disse a ela qualquer coisa que incluía uma negativa, um não.
Pela janela, creio, espiei enquanto a carroça se afastava com ele e com Roberta. Enquanto a carroça diminuía e minha culpa aumentava...
A culpa de dizer não. Não à carroça, não ao menino humilde, não a alguém que havia demonstrado interesse por mim? Não sei. Somente sei que foi um não. Um não cheio de culpa, um não envergonhado. Um não sem noção.
Quase trinta anos se passaram. E hoje é sábado. E foi numa conversa de sábado à tarde que percebi. Percebi ao voltar para casa. Minha casa cuja janela da cozinha avista a sala de jantar e a sala de estar. Minha casa estranhamente ambígua. Minha casa voltada para ela mesma e ainda assim para fora. Depois de sair pelo bairro e andar a esmo com uma amiga e conversar com ela sobre a casa onde me sinto em casa. Que é outra casa cujas janelas divisam o ponto de fuga de uma longa rua que acaba em praça, mas isso, quando olhamos de lado, de frente, pelo menos da cama em cujos braços me sinto em casa no universo, diviso a torre de uma Igreja. Igreja anexa a uma escola e a um abrigo de loucos... mas isso é outra história.
Em todo caso, depois da conversa com ela. E depois de ter percebido que preciso dizer um outro não. Um outro não para outra pessoa que tantos anos depois me provocou o mesmo sentimento de constrangimento. E depois de perceber que meu constrangimento era apenas a vergonha pela minha própria vergonha, percebi:
Ser feliz é não ter vergonha de sua própria vergonha!
Tenho direito ao não. Se o não foi correto, ou errado, cheio de medo ou legitimamente intuitivo de um outro futuro que quero para mim, tenho direito ao não. E tenho direito à vergonha. Tenho direito aos meus medos, tanto quanto aos meus desejos. Tenho direito à minha sabedoria, tanto quanto à minha ignorância. Tenho direito à vergonha, tanto quanto ao amor. Amanhã, ou depois, preciso dizer a outra pessoa – não. Mas, curiosamente, poder dizer este não me libertou da culpa de um não que carrego ha tantos anos.
Talvez, finalmente, possa deixar a Roberta ir embora de carona na carroça!