quarta-feira, 27 de março de 2019

quarta-feira, 20 de março de 2019

sábado, 9 de março de 2019

dos passados que não foram


You and I

Você e eu
andando lado a lado
pelas ruas da cidade
Vestias branco
eu também
calças curtas e camiseta
saia e blusa eu
Tuas espaldas tão belas
sempre planas
sempre próximas
e meu desejo de repetir teu toque
aproximando-me de ti
com polegar e indicador
a recolher a pouca distância que entre elas ainda havia
tua pele tão macia
por baixo do pano senti
com tua excessiva magreza,
preocupei-me
Tu alma já curada
permitira que me recebesses em tua casa
mas teu ego ainda ferido
– referida –
mantinha distância formal entre nós
lonjuras do cotidiano e dos amigos
distâncias de sábado à noite
insistência em deixar fora
quem se quer bem
pois toda mágoa que não vem do coração
parece desejar
essa distância na qual os olhos ainda veem
e o coração ainda sente
E eu me perguntava
porque diabos calçavas terríveis crocs azul bebê
– a relação mais completa e adulta que tive, afirmei à terapeuta
ao tentar entender porque criticara a parede azul...
E eu? Estava descalça?
Não recordo
acordo
lembrando da escrivaninha bagunçada
na qual não soube como colocar de volta
organizadamente
cartinhas para o Papai Noel
e envelopes bancários com cartões de crédito
quisera verificar o endereço
como se possível fosse roubar o futuro...

domingo, 17 de fevereiro de 2019

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

magnolia grandiflora

há um rastro
de teu desejo
em meu cheiro
um traço
do teu toque em meus cabelos
uma marca
indelével no travesseiro
há,
sobretudo,
um encontro que me acalma
- me lava a alma –
feito o aroma
magnólia grandiflora
do ruídos das cigarras
nestas quentes
úmidas
noites tardias de primavera


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

2 3 4 9


Nothing had actually happened 
yet everything 
absolutely everything
had for ever changed

Sometimes it takes you four different continents 
or maybe just one last ferry trip of an hour and a half
sometimes reading hundreds of books
and analysing thousands of images
finishing a PhD thesis

knowing the Other
in depths of various smells and skins
in bright ever changing lights
verschiedene horizon lines
sunset and sundown times...

Yet all of a sudden

all you thought you had already grasped
will gently melt
smoothly accommodating
an unsuspected part of your own self
in that discreetly shining star
in your eyes...

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Carlos Drummond de Andrade - II

A certa altura, perdi o fio deste lugar inspirado que me guiava. Quando foi exatamente, não sei. Perdeu-se a vontade de poesia, de lê-la, de pensá-la, de senti-la, dispersa que fui pelos dias de céu azul. Já dizia Bachelard que são os dias de chuva os dias de ler poesia. Dias depois a chuva e frio voltaram, mas não bastaram para recuperar O estado poético em que me encontrava, aquele em que as palavras fluíam, desciam em cascata como a chuva pelas frestas do telhado. Choveu muito e sem parar naqueles dias. E a necessidade de terminar a leitura – não silenciosa – tornou-se algo com o peso de qualquer trabalho braçal, mas com o incômodo da exigência mental. Da segunda categoria das aflições no processo criativo, apresenta-se a aflição de tornar a poesia, a escrita, a produção, algo pronto, com alcance definido. Passara-se a angústia daqueles dias de existência. A monotonia das refeições era somente monotonia quando deixava de ser o que se contrapunha à angústia. Quando tudo no mundo achava se lugar “era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas, pois a vida completa e bela e terna ali já estava”. Esse tempo, porém, que me invade, seria o que invade o poeta? 
Sendo ou não o mesmo tempo, “Versos à boca da noite” marca em vários simbolismos e fatos a percepção de certa quantidade de tempo vivido e de percepções e aprendizagens, algumas adquiridas, outras perdidas. A compra da vida em sal, rugas e cabelo, marca definitivamente que o poeta algo dá para viver. Nesse sentido, o poeta finalmente aproxima-se dos outros homens, da humanidade. Vertemos todos lágrimas, ganhamos todos rugas e perdemos cabelos, tanto mais quanto mais vivemos. Desta maturidade anunciada do poeta, não somente a poesia, mas o viver de todos nós, compõe-se de dádivas (achados, encontros) e doações (trabalho, suor, lágrimas). O poeta indica, certo equilíbrio na vida. E, na compreensão de tal equilíbrio, um derradeiro, final apaziguamento.

sábado, 10 de junho de 2017

Carlos Drummond de Andrade

Sim, agora fica claro que o sujeito de classe de roupas brancas é poeta.
Poeta e tempo no impasse entre o hoje e a eternidade que nunca é? Posto que do tempo só percebemos o agora, é mais esperança do que infinito o que nos faz acreditar que tempo e vida prevaleçam a nossa curta existência. Recheado da possibilidade de permanência e recorrência da vida não retenho nem a minha própria e do tempo só sinto sempre – de fato – hoje.
Se insinua que as coisas mudam de estatuto na mão do poeta – até as palavras adquirem corpo e pele – as coisas tornam-se vida nas mãos do poeta. É a relação dele com elas, não apenas o simples existir delas que as dignifica. Há algo de pretensioso neste poeta? Alguma arrogância? Ou apenas tentativa de sentir-se menos diminuído diminuindo as coisas? Pergunto ao poeta. Mas ele cala e se esconde sob os sulcos crispados da face.
Há uma tensão interessante; há poemas em que o sujeito coloca o cotidiano como uma espécie de alento e de peso a contrabalançar a angústia emocional e existencial dele próprio. Neste poema, mais do que em muitos outros, o que o poeta faz é reivindicar um estatuto da poesia através da apresentação do sujeito poético. Não é o cotidiano que lhe salva, é a própria poesia enquanto olhar que lhe permite lançar sobre este mundo que o cerca. Há uma particular e sensível linha de equilíbrio sobre a qual anda o poeta a contrapor e sustentar em oposição suas angústias e a compra do jornal e do leite. É de seu olhar angustiado sobre o mundo que nasce a poesia, não das palavras sem pele, das palavras formais e em estado de dicionário, estas, são as palavras das palavras-cruzadas. Sim, meu avô todas as manhãs as preenchia na folha de jornal dobrado enquanto comia pão de centeio com salame e queijo e sorvia lentamente sob o bigode café com leite em grossas e antigas xícaras de porcelana arrendondada. Sentava à cabeceira da mesa. Todos os dias. Não havia poesia em suas palavras. Creio que as palavras lhe faltavam. Mas me ensinou a apreciar o cheiro da areia, a imensidão do mar. Me fez amar sem exigências até que atingi a puberdade e amar, lamentavelmente, imperiosamente, tornou-se questão de gênero. Não deixei de ama-lo jamais, sinto sua falta até hoje, em cada domingo, em cada dia de praia, cada jogo de general, cada caipirinha, cada pastel de marisco. Mas, criou-se a distância dos amores recalcados entre nós. Um continente inteiro nos separou no momento da despedida. Baby, ele me chamava. Do mundo de meu avô, afinal creio que pouco sei, posto que tanto se escondia nas palavras que soletrava, nas marcas densas, retas e belas que deixava nas folhas do jornal Correio do Povo.
Como podem afinal meu avô e o poeta tanto terem em comum? E haverá também certa dose de traição nesta exposição não publicada de minha dificuldade em escrever o que deve ser escrito que se equilibra, e cai, com o estrondo do possível no chão de minha vida? A poesia é ocupação: ação de fazer, constituir. Não é inspiração. É labuta diária. Há nela a necessidade do esforço repetido, cotidiano da concretude das ações manuais “e eu sempre acreditei que havia música em seus dedos e poemas de amor em minhas roupas escritas” já havia dito Cecília. Há valor de trabalho, manual mesmo, na poesia. É neste curioso limite que ela se move, entre o concreto e o invisível, entre o real e o imaginário, entre o umbigo e a fantasia, morte e vida.
Sim, sei, caro poeta, que é a tentativa de encontrar-te no fundo de ti mesmo que te afasta de mim, e que esta distância só se cria e se alimenta do amor – ou seu desamor – refeita em ódio. Teu ódio não é teu. É o fermento que cresce sobre tua fadiga de amar. Tua solidão infinda. Que sobrevive e se consola em poemas e xícaras de chá, mas não se supera jamais. Vives, afinal, de movimento. Vives da tensão infinita entre desejar e ter, reter e perder, querer e perder: amor, medo, vida e morte. 



terça-feira, 23 de maio de 2017

Hemingway

Digressão temporal e ponto. Tinham a incrível capacidade de colocar a nu o coração um do outro.  Amavam e sofriam, beijavam mordendo e o inverso na mesma medida. Para eles, comprar frutas nunca era apenas comprar frutas. Nunca era comprar, era frutas. Entre eles havia fios de alta tensão: de medos, de palavras, de escutas, de desejos. Ele lhe tornava imperioso, porque ela assim o amava, ouvi-lo ultrapassando as orelhas de seus pensamentos e sentimentos mais rasos. E esta escuta lhe pedia escrita. Às vezes, cartas, outras vezes, isto. Porém havia certo medo – certa intuição de uma ideia de traição na exposição nua nas folhas em branco. E pensava se deveria disfarçar, esconder, fugir na escrita de si, escrevendo sobre o outro. Mas havia generosidade, pensava. Era generoso o poeta que, ao acessar seus próprios aspectos ou pulsões de origem subjetiva, ao torná-los impulso de criação, ao referir-se a um si mesmo, a um eu ainda que fictício, não era, por escolha, apenas um simples os outros. Escolher falar de si, falar como si, opunha-se à escolha de um eles que destensionaria a relação entre o sujeito e o mundo. Diluíam-se as angústias ao terceirizar-se o olhar, ao apresentar o sentir do humano como algo que é visto de fora por alguma consciência ou deidade sobre-humana. Não, não; era humano o sofrimento. Humano e sofrimento, ponto. A angústia, afinal, só é apresentada em toda sua funesta e densa dimensão quando se trata de nossa própria angústia. Nada se parece mais com a leitura de seu próprio diário – tenha ou não já sido escrito – que a narrativa da angústia em primeira pessoa. Não, nem pense que depois disso vou profissionalmente vir aqui limpar, aparar e polir este texto. Não tenho como, não agora. Talvez daqui a uns 20 anos e aí, com certeza, terei perdido o medo que agora tenho de suas arrogâncias e imperfeições e verei apenas seus brilhos, suas intuições e sua generosidade inata comigo e contigo. Era essa a maneira como viviam o amor, pensava ela sobre si própria, dividindo o mais íntimo segredo que possuíam, a angústia? Assim, houvera uma linda e grandiosa melancolia logo no início. Porque precisava ela ser o mais produtivo? E porque as palavras pareciam mais certeiras e definitivas quando acordavam no meio da madrugada e acomodavam-se sofregamente, sonolentamente na folha branca de papel? O ruído do lápis sobre o papel era visto em sobreposição à lembrança da imagem de dois ou três cadernos de capa azulada e dois lápis e um apontador que, me disseram antes de dormir, Hemingway utilizava para escrever. Foi bonito, mas um pouco desconstrutivo saber, ou mesmo imaginar. Para mim Hemingway era a cara da máquina de escrever. Como é fácil enganar-se com nossas imagens e com as dos outros. No final das contas, o que fiz foi digitar...


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Understanding


The years of my youth, my sensual life –
How clearly I see their meaning now.

What needless repentances, how futile…

But I did not understand the meaning then.

In the dissolute life of my youth
The desires of my poetry were being formed,
The scope of my art was being plotted.

This is why my repentances were never stable.
And my resolutions to control myself, to change
Lasted for two weeks at the most. 

(Constantine Cavafy)


Alexandria Photograph via The New York Public Library Digital Gallery